A ficção científica da escritora estadunidense Ursula K. Le Guin sempre foi marcada pela experimentação. Em suas obras, os mundos criados não são apenas uma especulação do real, marcado pelo cientificismo e autoritarismo em suas diferentes formas, mas um exercício do pensamento e uma contemplação do que existe como potência e do que pode vir a ser. Michel Foucault, em As palavras e as coisas, diria que a literatura serve para atenuar a brecha deixada pela separação entre a vida, a linguagem e o trabalho, já que o ser humano necessitaria de uma forma de lidar com as palavras para descrever o que não existe mas que poderia existir.
É dessa forma que a escritora constrói o ciclo Hainish, um conjunto de obras escritas entre 1960 e 2002, que experimenta sobre diferentes formas de tecnologia, ciência, sexualidade, sociabilidade e política. Urras, um dos planetas desse universo, é dominado por duas potências: A-Io, um estado capitalista patriarcal e Thu, um regime autoritário socialista. Diante dessa dicotomia, alguns habitantes de Urras são levados a buscar alternativas, desde abandonando Omelas, uma cidade que sustenta uma falsa harmonia baseada em tortura, até a fundação de uma sociedade anarco-sindicalista em Anarres, satélite natural do planeta.
Esses dois momentos, descritos respectivamente pelo conto Aqueles que abandonam Omelas e pelo livro Os Despossuídos, são separados pela revolução odonista. Nessa insurgência popular, os habitantes de A-Io são guiados pelas reflexões de Laia Asieo Odo, uma mulher de 72 anos quando se passa o conto O dia antes da revolução. No entanto, esse último conto não retrata as manifestações e conflitos típicos de uma revolução, mas os últimos momentos da vida de Odo, desvelando a humanidade, a fragilidade, os medos e desejos da filósofa e guia revolucionária.
Nas entrelinhas da narração sobre um dia comum de uma idosa, Le Guin desenvolve um verdadeiro ideário anarquista, já que as reflexões filosóficas de Odo convergem a uma luta contra qualquer governo sobre os corpos, mentes e corações dos indivíduos. A própria habitação de Odo, um antigo prédio de uma associação bancária, já se aproxima do anarquismo e poderia ser considerada uma zona autônoma temporária, descrita pelo anarquista Hakim Bey como uma tática para criar espaços que não comportem as estruturas formais de poder. No conto, os moradores são livres para contribuir de acordo com suas afinidades e necessidades e, de certa forma, isso acaba por construir a coletividade no local. Na lápide de Odo, descrita no livro Os Despossuídos, está escrita a frase “Ser todo é ser parte” e, pela leitura do conto, nota-se que tal ensinamento sempre foi prática de sua vida.
Outro ponto importante do conto está ligado à sexualidade da protagonista, uma mulher idosa que, ao julgamento de muitos, não poderia ter desejos. Ao assumir a legitimidade de seus desejos e o direito de se sentir desejada, Odo mostra também que não se sujeitaria a nenhuma forma de governo sobre seu próprio corpo. Tal insubordinação também valia para a fragilidade que seu corpo idoso impunha contra suas vontades de caminhar pela cidade e, nem que fosse pela última vez, Odo sairia de casa para observar a cidade.
Em seu passeio, Odo olha para os despossuídos, alguns que nada têm senão sua força de trabalho a ser vendida por um valor ínfimo e outros tão miseráveis que nem a oportunidade de serem explorados lhe é fornecida. A protagonista, ao observar a miséria, labuta, desperdício e crueldade, mostra que não possui ingenuidade em relação à revolução que engendra: ela não pretende mudar a natureza humana ou “ser a Mama que afasta a tragédia das crianças para que elas não se magoem”, mas dar o direito da escolha aos indivíduos, desde que essa escolha não se baseie nos negócios, na fonte de lucro e nos meios de poder para outras pessoas.
Porém, a luta da protagonista pelo direito à escolha não é apenas uma negação das formas de governo e hierarquia, mas sim um princípio de responsabilidade. Ao se perguntar o que seria um anarquista, Odo reflete que seria “alguém que, ao escolher, aceita a responsabilidade da escolha”. Nessa frase, a filósofa desconstrói a ideia de que anarquia significaria caos social e ausência de compromissos do indivíduo para com o coletivo. Na verdade, a anarquia só seria possível a partir da cooperação social já que, como dizia o anarquista Pierre-Joseph Proudhon, a justiça só seria alcançada a partir da igualdade dos trabalhos a partir da proporcionalidade dos talentos.
Por fim, cabe dizer que a ficção científica de Le Guin não é intrinsecamente anarquista apenas pelas bandeiras e ideias apresentadas, mas o é pelas próprias possibilidades que ela apresenta à imaginação. A escritora nunca se dispôs a descrever utopias e realidades dadas, planas ou com conflitos facilmente solucionáveis, mas sim em apresentar problemas que propõem a liberdade como horizonte. Tal posição se assemelha muito às diferentes práticas anarquistas como o anarcoindividualismo, anarcocomunismo, anarcossindicalismo, anarcoveganismo, anarcofeminismo, anarcopunk e muitas outras. Da mesma forma que a revolução anarquista não é um momento no futuro a ser atingido, mas um modo de vida inscrito no presente, a revolução do conto não ocorreu com a morte da protagonista, mas acontecera em toda sua vida.